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Em busca do bronzeado perfeito, mulheres de todas as classes e idades se deslocam até Realengo, no subúrbio do Rio, para se submeterem às técnicas de Érika Bronze

As trinta espreguiçadeiras ficam milimetricamente enfileiradas no espaço de 40 metros quadrados. Em cima de um pequeno móvel, em uma cesta encampada com uma ilustração do pintor Romero Brito, estão depositados protetor solar, creme hidratante e fita isolante preta. Ao lado dela, ventiladores. As clientes chegam aos poucos, e são orientadas a tirar toda a roupa. Só depois se inicia a consulta: qual é o bronzeado desejado? Doura com facilidade? Tem alguma alergia? Qual a marquinha de preferência (fio dental, asa delta)? Depois, começa o processo com as fitas isolantes, coladas nos corpos para simular biquínis, que dura dez a quinze minutos. O tempo de exposição ao sol é religiosamente cronometrado. Nada de ficar mais de costas porque é confortável. Também há cuidados com as moças de quadril avantajado. Os tubos de isopor são colocados sob elas para não deixar marcas indesejadas entre coxas e glúteos. Para amenizar o calor, e as temperaturas são altas por lá, um funcionário borrifa água nas clientes, que o chamam, a cada dez minutos: “Bombeiro!” Enquanto isso, outra assistente coordena a hora de mudar a posição do corpo. Esse templo do bronze perfeito fica no subúrbio do Rio de Janeiro, em Realengo, em cima de uma laje. Para lá tem se deslocado até mulheres de outros estados, além de cariocas da Zona Sul e da Barra da Tijuca, sedentas por um dourado digno de causar inveja.

A ideia do bronze na laje é da carioca Érika Martins, 34 anos, mais conhecida como Érika Bronze, que ergueu seu empreendimento em cima da sua casa própria de dois quartos. A empresária faturou R$ 80 mil no verão passado e a expectativa é dobrar o valor este ano. “Tudo declarado, tudo com nota fiscal”, faz questão de frisar. Cada sessão custa R$ 70 e são necessárias três para a fixação da marca – R$ 210 o pacote. Depois, a manutenção baixa para R$ 50. Mas o faturamento pode crescer muito ainda devido à última notícia que a empreendedora do bronzeamento em série recebeu. A Anvisa aprovou seu preparo de cremes, que mistura nutriente, bronzeador e hidratante e ela poderá criar sua sonhada grife Érika Bronze. “Quero que vire febre no Brasil”, diz, vislumbrando poder enviar pelo correio para a clientela das outras cidades. O produto vai se juntar a outros que já são comercializados por ela na laje, como biquínis, a R$ 30, viseiras com o logotipo Érika Bronze, a R$ 35, sanduíche, refrigerante e suco a R$ 5, massagem a R$ 15. As clientes aplaudem as novidades, não se incomodam de suar sob o sol do subúrbio carioca e se deliciam com as marcas nada discretas que exibem sob os decotes. Elaine Trindade, 36, faz as sessões na laje ao lado da filha, Thaiza, 22. “Gostamos porque fica um bronzeamento natural”, diz a jovem.


Dificuldades



Hoje famosa nas redes sociais, com 30 mil curtidas no Facebook, e negociando franquias em cidades como Fortaleza e Florianópolis, Érika lembra como teve a idéia do seu negócio. “Aos 13 anos, não tinha dinheiro para pagar a passagem de ônibus para ir à praia e me bronzeava na laje com esparadrapo para fazer as tais marquinhas”, afirma. Ela não conheceu o pai e foi doada, assim como seus dois irmãos, pela mãe, ainda pequena. A decisão de vender sua técnica de bronzeamento veio aos 22 anos, após tentativas frustradas de trabalhar como telemarketing e babá. A falta de dinheiro não existe mais em sua casa, embora viva, ainda, em um ambiente humilde. Ela tem três filhos do primeiro casamento e mora, atualmente, com Rafael Gomes, 11 anos mais novo.

Erika Bronze deve abrir franquias em outros estados e poderá comercializar seu creme bronzeador, que acaba de ser aprovado pela Anvisa
A técnica que começou a ser aplicada em garotas do subúrbio logo começou a atrair clientes dos bairros ditos mais nobres. Nenhuma novidade para especialistas de moda como Márcia Disitzer, autora do livro “Comportamento na praia carioca”, que aposta que Erika Bronze aporte na Zona Sul muito em breve. “Com a internet, o trânsito da informação é mais veloz e todo mundo se inspira e influencia todo mundo. A Érika não inventou a marquinha, mas pegou a expertise e fez dela um negócio”, diz.

Negócio que só prospera. No inverno, o faturamento foi de R$ 50 mil. Dinheiro demais para guardar em casa, o que fez a empreendedora tomar uma decisão: agora ela só recebe pagamentos por meio de cartões de crédito ou depósito bancário. O marido é uma espécie de administrador e relações públicas. Além dele, Érika emprega mais cinco pessoas, entre as quais, uma assessora de imprensa e uma secretária. A laje vai ficar pequena.


Etapas para conseguir as marquinhas de Érika Bronze

1. Nua, a cliente recebe uma camada de cremes que misturam hidratantes, protetores solares, bronzeadores e nutrientes no corpo todo

2. Após escolher a marca que deseja – asa delta, sunguinha –, Érika cola fita isolante preta onde o sol não pode entrar, e gaze umedecida em água nas pontas dos seios e nas partes íntimas

3. Se a pele for mais morena, o tempo de exposição ao sol será de 1h a 1h30. Se for clara, em torno de 40 minutos
4. No período, as clientes recebem borrifadas de água várias vezes de acordo com a potência do sol, e bebem muita água

5. A sessão deve ser repetida por três dias seguidos, e custa R$ 70,00 cada. A manutenção custa R$ 50 e é feita de acordo com a fixação do bronzeamento e da disponibilidade da cliente. Em média, duas vezes por semana
Créditos da Matéria: Revista ISTOÉ